Segurança elétrica

Teste de segurança elétrica em equipamentos médicos: o que a ABNT NBR IEC 62353 pede

O que é o ensaio de segurança elétrica, quais medições ele envolve, quando repetir e o que precisa constar no laudo do seu equipamento.

Engenharia clínica Kallnoguer4 min de leitura

Um monitor multiparamétrico pode estar exibindo as curvas perfeitamente e, ainda assim, deixar passar corrente de fuga acima do aceitável para o paciente. Esse tipo de falha não aparece no uso do dia a dia — só aparece quando alguém mede. É para isso que existe o teste de segurança elétrica (TSE), e a referência no Brasil é a ABNT NBR IEC 62353.

Para que serve a NBR IEC 62353

A norma trata dos ensaios recorrentes e dos ensaios após reparo de equipamentos eletromédicos. Ela é diferente da IEC 60601-1, que é a norma de projeto e certificação do fabricante: a 60601-1 inclui ensaios feitos em laboratório, em condições controladas, alguns deles destrutivos — impraticáveis com o equipamento já instalado no hospital.

A 62353 foi pensada justamente para a vida útil do equipamento: métodos que podem ser aplicados em campo, sem desmontar nada e sem colocar o equipamento em risco, para confirmar que ele continua seguro depois de meses de uso, quedas, trocas de cabo e reparos.

O que é medido no ensaio

Um TSE completo segue uma sequência lógica, sempre começando pelo mais simples:

  1. Inspeção visual — integridade do gabinete, cabo de alimentação, plugue, acessórios, cabos de paciente, fusíveis acessíveis, marcações e documentação.
  2. Resistência do aterramento de proteção — em equipamentos classe I, verifica se as partes metálicas acessíveis estão de fato ligadas ao terra. O limite de referência é de 0,3 Ω para equipamentos com cabo não destacável (com cabo destacável, 0,2 Ω para o equipamento mais 0,1 Ω para o cabo).
  3. Resistência de isolação — aplicada com 500 V em corrente contínua entre as partes energizadas e o terra ou as partes aplicadas.
  4. Correntes de fuga — a medição mais importante para o paciente. A norma admite três métodos: alternativo, direto e diferencial, cada um com seus limites. Para a corrente de fuga do equipamento classe I, por exemplo, o limite é de 500 µA nos métodos direto e diferencial e de 1.000 µA no alternativo.
  5. Ensaio funcional — confirmar que o equipamento cumpre sua função depois do ensaio.

As correntes de fuga das partes aplicadas (tudo o que encosta no paciente: eletrodos, sensores, pás) têm limites próprios conforme a classificação da parte aplicada — muito mais rigorosos nas partes tipo CF, usadas em contato direto com o coração.

Os valores-limite citados aqui servem para ilustrar a lógica do ensaio. O laudo deve sempre comparar as medições com os limites da edição vigente da norma e com a classificação específica de cada equipamento.

Com que frequência repetir

A própria norma não fixa um intervalo único. A regra é:

  • Seguir o intervalo indicado pelo fabricante, quando houver;
  • Quando não houver, definir o intervalo com base no risco — a norma traz um anexo com orientações para isso, considerando o tipo de equipamento, a frequência de uso e o ambiente;
  • Sempre após um reparo que possa ter afetado a segurança (troca de fonte, de cabo de alimentação, abertura do gabinete).

Na prática, a maior parte dos hospitais adota a periodicidade anual para o parque em geral, casada com a manutenção preventiva, e reduz o intervalo para equipamentos críticos ou muito exigidos.

O que precisa constar no laudo

Um laudo de TSE que resolve (e que se sustenta numa inspeção sanitária ou auditoria de acreditação) deve trazer, no mínimo:

  • Identificação completa do equipamento: fabricante, modelo, número de série e patrimônio;
  • Classe de proteção e tipo das partes aplicadas;
  • Método de medição de corrente de fuga utilizado;
  • Valores medidos lado a lado com os limites da norma, e o resultado (aprovado/reprovado) de cada item;
  • Identificação e calibração do analisador de segurança elétrica utilizado;
  • Data, responsável técnico e assinatura.

E se o equipamento reprovar?

Reprovação no TSE significa tirar o equipamento de uso até que a causa seja corrigida — normalmente um cabo de alimentação danificado, uma conexão de terra solta ou um componente de isolação degradado. Depois do reparo, o ensaio é repetido. Tudo isso fica registrado no histórico do equipamento.

Onde o TSE entra na rotina do hospital

O ensaio de segurança elétrica é uma das peças do plano de gerenciamento de tecnologias em saúde exigido pela RDC Anvisa nº 509/2021. O ideal é que ele esteja no mesmo cronograma da manutenção preventiva, para que o equipamento saia de cada intervenção revisado, testado e documentado de uma vez.

É assim que fazemos nos contratos de engenharia clínica da Kallnoguer: o TSE conforme a NBR IEC 62353 entra no cronograma anual, com laudo individual por equipamento. E, para hospitais com equipe técnica própria, oferecemos os analisadores e simuladores para fazer o ensaio internamente.

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